/noponia.

objectivo: derivação oblíqua de reflexões.
Função/devaneio funcional: Crítica das artes e dos media e observadora da raça humana.

Para contra-reflectir, sintam-se livres de usar o email noponia(at)gmail.com

Já há muito que cá não vinha. E pareceu-me que Deolinda foi o mote ideal para isso. Parva que eu sou, a última canção lançada na digressão dos Coliseus, põe o dedo na ferida da crise. E levanta questões que a geração anterior já levantou.

No entanto, o que não deixa de ser preocupante, é que esta atitude de resignação perante a crise é comum em qualquer geração. E mais estranho ainda é que é essa atitude de resignação é o que permite aguentar o embate, ao fincar os pés bem no chão e, não lutar com as ondas, mas conseguir resistir-lhes.

A minha questão é: se há questões que nos permitem evoluir, temos atitudes pro-activas ou resignadas? qual das duas permite uma melhor adequação à situação?

Principalmente esta nova geração, de origem afectada pela crise (condições de trabalho mais precárias, menos emprego, mais abusos salariais e menos segurança), que podem, mesmo assim ter mais opções, que opção escolhem? Enquanto há duas gerações, havia trabalhos para a vida, sistema de segurança social assegurado, ordenados certos - mesmo que curtos - e condições de trabalho estáveis, a geração que agora é despejada no mercado de trabalho vê-se, assim do pé prá mão, sem nenhuma destas regalias. 

As opções que lhes restam são, no entanto, bem melhores e em mais número do que as que os pais tiveram.

Como têm, geralmente, mais formação e mais conhecimento de línguas, podem candidatar-se a um lugar em, virtualmente, qualquer parte do mundo, e as condições de mobilidade terrestre e aérea só vêm ajudar.

Podem estabelecer-se individualmente, numa pequena empresa ou integrar uma multinacional. Fazer as contas, escolher o local certo e ter um produto/serviço que VAI mesmo vender e, basicamente, mandar-se à aventura.

Podem enriquecer o currículo com INOV’s e ERASMUS - e, dependendo de quem recruta a seguir, isso vale o que vale - e extrair dessas experiências internacionais o que quem não arreda pé da Tugalândia não consegue.

Podem ainda, quem sabe, arrastar-se por estágios intermináveis, durante meses, para o currículo e - conforme dizem os Deolinda  - trabalhar de borla.

Sobre esses, aqui vai um diagrama muito interessante: Should I Work For Free

http://www.shouldiworkforfree.com/#no5

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Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!


Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou!
Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar,
Que parva que eu sou!
E fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

twit-trivialidades

Hoje tinha que me manifestar, porque não há pachorra para unilateralidades que partem de gente que, supostamente, é fazedor de opinião em certos e determinados órgãos de comunicação.

A imprensa - em todos os seus multimeios - tem abordado o Twitter de mil e uma formas, com incidência - pois! - no Paulo Querido, que, para o bem e para o mal, está, verdadeiramente ONLINE.

Tal foi o caso repetir-se na Única deste sábado, cujo Prato Principal é o Cérebro. Luís Pedro Nunes, na sua “Em Manutenção” (pág. 78) , fala - de forma incompleta, jocosa e unilateral - assim como no seu próprio Twitter , exactamente do Twitter, essa “rede social” que anda na boca do povo, tendo como base “conversitas de 140 caracteres produzidas em colmeias online e que até há umas semanas estavam confinadas a nerd-geeks”.

Caro senhor, como em todos os fenómenos sociais, nomeadamente os “democráticos” como é o Twitter, a gestão de informação baseia-se no bom senso. Como em todos os fenómenos sociais, há gente com mais e com menos bom senso e com toda uma panóplia de intenções e contrapartidas que, se calhar, Vª Exª não previu. Esse senhor seu amigo com “três meses de Twitter” deve verificar as fontes, porque nem só de directores de jornais vive a nova vaga de Twitterers e há mais “media producers” para lá dos noticiosos tradicionais. Web 2.0, já ouviu falar? Então talvez preciso de mais literatura quando a Web 3.0 estiver completamente estabelecida.

Refere-se ele ao Twitter como uma “imensa favela de morro com centenas de conversas simultâneas”. Como em todos os fenómenos sociais, é certo que a maior parte das pessoas não tem nada de importante a dizer ou fala de trivialidades, e despeja desabafos na twittosfera. Há quem (os followers) siga, a torto e a direito, users que têm grande input de informação na plataforma web-based, ao alcance de todos - ou quase todos - para esse tal reconhecimento e ascensão social. Há quem ainda não perceba para que serve o Twitter e há outros que não vêm qualquer utilidade no dito. Mas, e perdoe-me a arrogância, eu uso o Twitter para meios profissionais. Não que se note pela minha timeline, mas eu leio mais do que escrevo. E leio (leia-se, sigo) gente que partilha informação, que escreve matérias, que explora conteúdos - acho que é esta a lógica do Twitter. E arrisco a dizer que o guru Paulo Querido partilha desta opinião.

Ainda há outros senãos do Twitter: enquanto isto for moda, toda a gente vai twittar. Quem deixar de ver utilidade, a curto prazo, no Twitter, abandona a rede e volta a ter vida pessoal - e profissional, quiçá. É dificil acompanhar ao segundo a actualização de informação - porque ela acontece, efectivamente, ao segundo - e a timeline passa a ter mais de 5 páginas em apenas 1 minuto ou dois. Todos querem ser opinion makers e o Twitter veio agravar esse desejo de popularidade. E aí volta a necessidade de triagem e de bom senso (ou a falta dele).

Evidentes são as vantagens e desvantagens do uso do Twitter, o que também depende de quem, para que efeito e com que broadcast ele é utilizado (medido pelos followers, talvez). Mas, volto a dizer, são contextos dos fenómenos sociais e das democracias.

Mas, caro senhor, quem não tem nada de importante para dizer em 140 caracteres, pois tem bom remédio: não diga.

hipocrisia assexuada

Depois de a mais recente anedota de acção policial ter tido lugar na terra dos Bispos e das meninas da vida, só me resta lamentar o estado em que este país está, gradualmente, a ficar. Coitado do Colbert, ou então não. Glorioso, ele, que dois séculos depois de ter exposto a nudez pilosa do sexo feminino ao mundo, continua a escandalizar a mente dos burgueses - ” para quem não sabe hipocritamente devotos e religiosos, com a sua arte.” (http://osgajosdojardim.blogspot.com/2009/02/o-ultimo-bastiao-moral-do-reino.html). Um país com tantas casas de alterne e prostitutas de rua, que discute casamentos homossexuais e faz do sexo - ainda - tema tabú, só posso considerar isto um recolhimento das mentes - e dos sexos. Pensei que, aparentemente, eles apenas ignorariam estas situações - por livre e expressa vontade tenaz de negação - mas, afinal, eles agem. As acções que tomam - e como as tomam - é que ridicularizam a sua acção e descredibilizam a sua posição na sociedade. Só me faz lembrar a ironia da música Behind The Wall, cantada por Tracy Chapman: “And the policeman said / I’m here to keep the peace /Will the crowd disperse”. A única reflexão que posso fazer quanto a isto, sem escrever mais do que todos os bloggers tugas já escreveram (p. ex, http://www.100nada.net/as-conas-de-braga/2009/02/24/), e no rescaldo de uns óscares que trouxeram reconhecimento ao filme de Gus Van Sant, Milk, qualquer dia, temos o filme proíbido em Portugal, a Lesboa passa a ser considerado um atentado ao pudor e o Bunny Ranch volta para os canais fechado da cabo. O recolhimento dos sexos e das morais em virtude da viragem à direita da mentalidade portuguesa? Sim, senhor. Esta hipocrisia assexuada merece a minha vénia. E o meu descrédito.