Já há muito que cá não vinha. E pareceu-me que Deolinda foi o mote ideal para isso. Parva que eu sou, a última canção lançada na digressão dos Coliseus, põe o dedo na ferida da crise. E levanta questões que a geração anterior já levantou.
No entanto, o que não deixa de ser preocupante, é que esta atitude de resignação perante a crise é comum em qualquer geração. E mais estranho ainda é que é essa atitude de resignação é o que permite aguentar o embate, ao fincar os pés bem no chão e, não lutar com as ondas, mas conseguir resistir-lhes.
A minha questão é: se há questões que nos permitem evoluir, temos atitudes pro-activas ou resignadas? qual das duas permite uma melhor adequação à situação?
Principalmente esta nova geração, de origem afectada pela crise (condições de trabalho mais precárias, menos emprego, mais abusos salariais e menos segurança), que podem, mesmo assim ter mais opções, que opção escolhem? Enquanto há duas gerações, havia trabalhos para a vida, sistema de segurança social assegurado, ordenados certos - mesmo que curtos - e condições de trabalho estáveis, a geração que agora é despejada no mercado de trabalho vê-se, assim do pé prá mão, sem nenhuma destas regalias.
As opções que lhes restam são, no entanto, bem melhores e em mais número do que as que os pais tiveram.
Como têm, geralmente, mais formação e mais conhecimento de línguas, podem candidatar-se a um lugar em, virtualmente, qualquer parte do mundo, e as condições de mobilidade terrestre e aérea só vêm ajudar.
Podem estabelecer-se individualmente, numa pequena empresa ou integrar uma multinacional. Fazer as contas, escolher o local certo e ter um produto/serviço que VAI mesmo vender e, basicamente, mandar-se à aventura.
Podem enriquecer o currículo com INOV’s e ERASMUS - e, dependendo de quem recruta a seguir, isso vale o que vale - e extrair dessas experiências internacionais o que quem não arreda pé da Tugalândia não consegue.
Podem ainda, quem sabe, arrastar-se por estágios intermináveis, durante meses, para o currículo e - conforme dizem os Deolinda - trabalhar de borla.
Sobre esses, aqui vai um diagrama muito interessante: Should I Work For Free
http://www.shouldiworkforfree.com/#no5
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Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou!
Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar,
Que parva que eu sou!
E fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.