3% de energia
Bem me avisaram. Que há coisas que não devemos saltar - o sono, as refeições, o pequeno almoço, em especial - mas há dias em que acho que sobrevivo a viver do ar. Levanto-me na euforia stressada do costume - que isto de levantar nas calmas não é cá comigo -, pestanejo três vezes para constatar que já é dia e, na pressa de quem tropeça no colchão, voo em direcção ao chuveiro.
A luz que mais magoa é a da manhã em que se devia ter ficado na cama. Ou da manhã que ainda não viu cama. Quem dormiu mal a preparar um trabalho ou quem sai do bar lá pela hora do pequeno almoço - mesmo que não o tomem - já experimentou esta sensação. Ainda assim, conseguimos arrastar-nos para o dia.
As pessoas prolongam-se, adiando a exaustão, e quando ela vem, quedam-se, prostradas, sem a motivação fisiológica e motora que os faz mover para dormir. Ou que nem lhes dá a força para se arrastarem até ao colchão.
Normalmente, as olheiras afundam-se, dia após dia, e só se fossemos a bela adormecida é que poderíamos recuperar disso, algum dia. Ficamos amarelos, macilentos, parece que não comemos, que não tomamos banho, que trocamos as cores da roupa que vestimos, sentamo-nos em cima dos óculos e adormecemos em cima do teclado, com a testa na tecla “r”.
Claro que, neste entretanto, a única refeição decente deve ter sido o jantar - mais um erro, porque a mais pesada devia ter sido o almoço. Com intervalos regados a café, para manter a adrenalina no topo. No entanto, nada de grave. Já jantei há tantas horas que já devo estar a digerir o meu próprio estômago.
Os erros pagam-se e, quase sempre, muito mais caros do que no-los vendem. Quebras de produtividade durante vários dias ou semanas, se não tentamos dar um desconto no exagero, e 10 vezes mais de erros possíveis. Sonambulismo verbal, interacções reflexas, micro-sonos e desatenção constante. Eles bem me avisaram. Os do documentário que deu na Rtp 2 há semanas. O regresso ao sono retoma-se de forma muito mais calma, se tivermos dia e meio para dormir.
Estamos com 3% de energia. Com o sistema operativo prestes a desligar-se. E a produzir nada mais do que discursos incoerentes.